Das minhas muitas experiências com o Divino, posso destacar aqui a mais marcante. Eu tive várias, em diversos níveis. Experimentei o sobrenatural algumas vezes, quase sempre com medo, quase sempre pedindo pra que não rolasse mais. Eu fico muito impressionado, por demais até. Me impressiono com as coisas todas, e as que eu não consigo explicar racionalmente, me despertam pavor.
Minha família é mística, posso assim dizer. Estudei em colégio de freira, super católico, por vários anos. Ao mesmo tempo, ia todos os domingos para a She-sho-no-e e lia a tal da sutra sagrada diariamente. Depois disso, comecei a ir à comunhão espírita e devorava todos os romances kardecistas que caíam na minha mão. Antes porém, frequentei por dois anos a Gnose e aprendi sobre viagem astral, sexologia e tudo mais que eles ensinavam por lá. Li muito sobre ufologia também e tentei contato com os extraterrestres várias vezes. Aí veio a fase Batista e sua escola dominical. Paralelamente, eu e minha família íamos toda semana bater cabeça com Raul de Xangô e seu índio velho incorporado. Enquanto lia a bíblia e aprendia os hinos de louvor, tomava banho de pipoca pra descarregar e minhas dores de cabeça normalmente eram tratadas com o cristais. Aprendi a falar com a força cósmica e ordenar que meus desejos se realizassem. Mas, pra não perder tempo, também fiz campanha dos empresários na igreja Universal. Descobri que há seres intraterrenos além dos ETs. Joguei tarô, runas, consultei mapa astrológico, realinhei os chakras, fiz jejum, tomei passe, decorei um salmo... E tive um breve período budista.
Deu pra entender qual é a minha educação religiosa, né?
Pois bem. De tudo que vi, li, vivi, a experiência mais marcante que tive com o divino aconteceu no meu aniversário de 20 anos. Eu morava no Rio de Janeiro. Foi na noite do meu aniversário, que eu, do sétimo andar, ouvi uma voz dizendo "ARTHUR". Esse "ARTHUR" entrou por todos os meus poros e me encheu por completo. Não tive um só pelo que não levantou. Era um "ARTHUR" sobrenatural. Na época eu buscava respostas, eu queria conhecer o Deus, eu pedia pra que Ele se manifestasse de alguma maneira. E foi exatamente isso que aconteceu.
Ouvi a voz me pedindo pra descer. Tirei o tênis rapidamente e me deitei na cama, tremendo de medo. Decidi não ir. A voz ordenou:
- Você me procurou e eu estou aqui. Desça.
- Não.
- Não acredito que você vai negar o seu Deus.
Gente, foram essas as palavras que ouvi/senti. Tipo, foda!
Calcei o sapato e desci.
Quase não cheguei. No elevador, eu ouvia outras vozes, histriônicas, como num teatro ruim, pedindo pra eu não ir. Rindo. Gargalhando. Zombando. Parecia que o prédio todo ria de mim. Esquizofrenia na veia!
Atravessei a rua. No meio de uma praça, 7 pessoas rezavam baixo. Tipo, impossível de eu ouvir o que diziam lá do alto do apartamento.
No centro deles, uma figura muito parecida com o meu pai. Que conversava comigo diretamente. Sem falar, sem abrir a boca. Enquanto os outros oravam, a tal figura falou comigo durante muito tempo e deu todos os detalhes da minha vida passada, explicou qual era o esquema e deixou bem claro que nada do que fiz, pensei e fui podia escapar-lhe. O céu se abriu enquanto os transeuntes desapercebidos caminhavam ao nosso lado como SE NADA ESTIVESSE ACONTECENDO.
Marcamos um encontro no templo deles naquela mesma noite. Foi o tempo de ir pra casa, trocar de roupa, jogar os cigarros fora (e o isqueiro e o cinzeiro) e pegar um táxi pra Lapa. No caminho, é como se o mundo não quisesse que eu fosse: chuva torrencial, um assalto a mão armada no carro na frente do meu...
Cheguei ao templo. Eram umas 100 pessoas. Todos cantavam animadamente, felizes. O sermão do dia foi pra mim. Todo pra mim. Cada detalhe da minha experiência de vida foi escancarado. E ninguém PARECIA SE IMPORTAR.
Bem, chegou a hora da oferta em dinheiro. E mesmo depois de tudo o que tinha acontecido, quis fazer prova. Esvaziei os meus bolsos e dei tudo o que tinha. Pensei comigo: se essa coisa é pra valer mesmo, vai rolar um milagre e eu vou chegar em casa. Não deu nem dois minutos, um senhor (que estava presente na praça) chegou perto de mim e me disse:
- Eu te levo em casa.
De lá pra cá tudo mudou. Há uma sensação presente e pungente, como um sexto sentido, em mim, o tempo todo, mais ou menos me avisando o que fazer, me mostrando por onde ir. Teimei várias vezes com essa "sensação" e só me ferrei. É como se a minha consciência tivesse sido ampliada. Como se o meu corpo todo fosse a minha consciência. E essa consciência muito louca dá sinais físicos, sabe? Toques, sensações...
Não me converti a nenhuma igreja, não mudei todos os meus hábitos, não fiquei mais caridoso. Mas recebi esse presente: uma certeza de que não estou aqui em vão e nem sozinho e de que há em mim um guia, um bichinho que gosta de cutucar e que geralmente é muito pouco sutil em tentar me dizer coisas. Há muito mais coisas entre o céu e a terra. Mesmo.
E eu vou indo. Tentando entender mais sobre tudo isso e sempre, sempre dando uma chance ao sobrenatural.
E vem comigo dando glória!
